De tanto olhar o sol
De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi.
Cego, tacteio em vão a claridade;
Louco, cuspo no rosto da razão;
E deambulo assim
Dentro de mim
Negação a negar a negação.
Miguel Torga
do Evangelho segundo São João
Jo 1,1
No princípio era a Palavra
Jo 1,4
Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens
Jo 1,5
a luz brilha nas trevas e as trevas não se apoderaram dela
A Moira Encantada
Por manhã de San'João,
Que inda a aurora mal raiava,
E as ervas e as flores,
Fino orvalho rociava
(…) Contente da sua sorte,
Mais sorte não cobiçava;
Por manhã de San'João.
Sua sorte não deitava.
Almeida Garrett
de Colete de Forças
A minh'alma fugiu pela Torre Eifeel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões -
Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas...
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Mário de Sá Carneiro
do Diário IX
Disse-lhe:
Uma poesia sem intervalos. Taquipneica. Os versos como que aspirados sôfregamente pelo poema em asfixia.
Miguel Torga
Acordai
Acordai, Acendei de almas e de sóis
este mar sem cais nem luz de faróis
e acordai depois das lutas finais
os nossos heróis que dormem nos covais.
José Gomes Ferreira
Cantiga de Amigo
Nom sei hoj', amigo, quem padecesse
coita qual padesco que nom morresse,
senom eu coitada, que nom nacesse,
porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que m'escaecesse
vós que vi, amigo, em grave dia.
Nom sei, amigo, molher que passasse
coita qual eu passo que já durasse,
que nom morresse ou desasperasse,
porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que me nom nembrasse
vós que vi, amigo, em grave dia.
Nom sei, amigo, quem o mal sentisse
que eu senço, que o sol encobrisse,
senom eu coitada, que Deus maldisse,
porque vos nom vejo com'eu queria;
e quisesse Deus que nunca eu visse
vós que vi, amigo, em grave dia.
Dom Dinis, Rei de Portugal e do Algarve
A Semana Sancta de A harpa do crente
Tíbio o sol entre as nuvens do occidente,
Já se inclina ao mar. Grave e solemne
Vai a hora da tarde! - O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga
Alexandre Herculano
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