quarta-feira, 17 de junho de 2026

Concerto pelo Solstício de Verão - 20/Junho/2026

De tanto olhar o sol

De tanto olhar o sol, 

queimei os olhos, 

De tanto amar a vida enlouqueci. 

Agora sou no mundo esta negrura. 

À procura 

Da luz e do juízo que perdi. 


Cego, tacteio em vão a claridade; 

Louco, cuspo no rosto da razão; 

E deambulo assim 

Dentro de mim 

Negação a negar a negação.

Miguel Torga


do Evangelho segundo São João 

Jo 1,1

No princípio era a Palavra

Jo 1,4

Nela estava a vida e a vida era a luz dos homens

Jo 1,5 

a luz brilha nas trevas e as trevas não se apoderaram dela



A Moira Encantada

Por manhã de San'João,

Que inda a aurora mal raiava,

E as ervas e as flores,

Fino orvalho rociava

(…) Contente da sua sorte,​

Mais sorte não cobiçava;​

Por manhã de San'João.​

Sua sorte não deitava.

Almeida Garrett


de Colete de Forças

A minh'alma fugiu pela Torre Eifeel acima,

- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões -

Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.

Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas...


(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)

Mário de Sá Carneiro


do Diário IX

Disse-lhe:​

Uma poesia sem intervalos. Taquipneica. Os versos como que aspirados sôfregamente pelo poema em asfixia.

Miguel Torga


Acordai

Acordai, Acendei de almas e de sóis ​

este mar sem cais nem luz de faróis​

e acordai depois das lutas finais​

os nossos heróis que dormem nos covais.

José Gomes Ferreira


Cantiga de Amigo

Nom sei hoj', amigo, quem padecesse

coita qual padesco que nom morresse,

senom eu coitada, que nom nacesse,

porque vos nom vejo com'eu queria;

e quisesse Deus que m'escaecesse

vós que vi, amigo, em grave dia.


Nom sei, amigo, molher que passasse

coita qual eu passo que já durasse,

que nom morresse ou desasperasse,

porque vos nom vejo com'eu queria;

e quisesse Deus que me nom nembrasse

vós que vi, amigo, em grave dia.


Nom sei, amigo, quem o mal sentisse

que eu senço, que o sol encobrisse,

senom eu coitada, que Deus maldisse,

porque vos nom vejo com'eu queria;

e quisesse Deus que nunca eu visse

vós que vi, amigo, em grave dia.

 Dom Dinis, Rei de Portugal e do Algarve


A Semana Sancta de A harpa do crente

Tíbio o sol entre as nuvens do occidente,​

Já se inclina ao mar. Grave e solemne​

Vai a hora da tarde! - O oeste passa​

Mudo nos troncos da alameda antiga

Alexandre Herculano